Domingo, 22 de Junho de 2008

Insônia e Narcolepsia

A paixão intensa de outrora se foi
Ela não conseguiu transpor
A extensa barreira que tu criaste.

Tínhamos um lugar só nosso
Onde poderíamos sonhar
E talvez sermos felizes um dia.

Ditaste minha sentença
Não houve mentiras ou traições
Apenas indecisões e devaneios.

Titubeaste entre os parágrafos
Pois ainda sente o doce calor
Que tivemos em nossos lábios.

Olhando nossa fotografia antiga
Percebi algo que permaneceu no ar
Cuja mudança de estação teima em querer levar.

Nosso lugar não existe mais
Minha insônia não me deixa sonhar
Mas acordado consigo construir um lar.

Quinta-feira, 22 de Maio de 2008

O coração do marinheiro

O jovem marinheiro desceu a ladeira
Percorrendo o caminho mais rápido
Que o levasse até a dona de seu coração.

Trazia consigo no bolso da calça
Uma redondilha e um par de brincos
Ambos trazidos de um porto em Istambul.

Feliz estava porque honrara o pacto
Não se interessara por nenhuma mulher
Nem por aquela de Marselha.

A felicidade acabou ao avistar seu amor
Ela ganhara uma aliança dourada
Um mascate a fizera quebrar a promessa.

Dirigiu-lhe algumas palavras cordiais
Leu a redondilha com ar de derrota
Entregou a bijuteria de lata.

Jurou suicídio por conta do coração partido
Percebeu a insensatez e rumou para seu barco
Contou aos outros como deflorou seu ex-amor.

E decidiu voltar para Marselha.

* inspirado no conto "noite de almirante", escrito por Machado de Assis.

Terça-feira, 18 de Março de 2008

Lembra?

Lembra-se de quando éramos crianças?
Das manhãs geladas no parquinho?
Daquele balanço onde brincávamos?

O tempo passou depressa
Aquela rotina perdeu a graça
E tivemos que crescer.

A vida seguiu seu rumo
Eu continuei casmurro
Você buscou mais aprumo.

Enquanto fui para um lugar mais turvo
Você preferiu terras mais quentes
E a história não terminou diferente.

Mas assim é para ser
Amor de criança
Nunca é pra valer.

Sexta-feira, 8 de Fevereiro de 2008

Espelho da alma

Em um triste dia de verão
Descobri que és meu inferno pessoal
E também meu paraíso.

Em um triste dia de outono
Descobri que é fácil se apaixonar por ti
E que isso me fez cair em insano desespero.

Em teu sorriso reside a liberdade
Daqueles que vivem confiantes
Por saber que o mundo está aos seus pés.

Em teu abraço encontrei paz
Aquela que há muito procurava
A única que poderia me confortar.

Em meu âmago sinto inveja de ti
Aquele sentimento mesquinho
Simplesmente por viveste do teu modo.

Não posso mais viver longe de ti
Pois só poderei me reencontrar
Quando estiveres em meus braços.

Sexta-feira, 1 de Fevereiro de 2008

Diotima de Mantinea

Diotima de Mantinea
Tu és a culpada
Pelo mal que aflige o mundo.

Diotima de Mantinea
Tu és perpetuadora
Deste voluptuoso flagelo.

Que enganou tantos corações
Construindo mundos de ilusão
Que nos ceifaram orgulho e sanidade.

Com o ardil feminino
Ensinaste a Sócrates
A vil filosofia do amor.

Os socráticos discípulos
Propagaram a nefasta ciência
Para que outras gerações pudessem acessá-la.

O divino filósofo grego
Jamais poderia imaginar
O mal que ajudaria criar.

Caso imaginasse
Predominaria seu egoísmo
E não dividiria tal filosofia
Com o resto da humanidade.

Sexta-feira, 18 de Janeiro de 2008

Café

Um simples café quente
Com o propósito de corromper
O inocente talentoso menino.

Aquele de alma boa
Não resistiu às tentações
E se entregou ao mundo de lama.

Sentiu o gosto do Poder
Seu apetite aumentou
Então conheceu a ganância.

Aquele que aprendeu certo
Começou fazer errado
Em nome de inescusos interesses.

Foi morar em Brasília
O amor não tinha mais sabor
A vida não tinha mais sentido.

Dinheiro não era mais problema
Comprou mais almas que precisava
Posses não lhe faltavam.

Descobriu ter um problema
Que teimava em lhe atormentar
Seu nome era consciência.

Tentou suborná-la
Tentou extirpá-la
Sem êxito lograr

Foi então que percebeu
Sua alma pertencia às suas posses
Sua honra não mais existia.

Pediu uma segunda chance
Mas morreu na mentira
Atormentado na lama que cultivou.

Domingo, 6 de Janeiro de 2008

Musa sem nome

Naqueles verdes anos
Da ingênua juventude
Tive meu único amor carnal.

Uma moça de sorriso distinto
Dona de um fino andar
E cabelos cacheados da cor do sol.

Pelo olhar me dominou
Fitei-a por antes segundos
Antes de ser levado pela mão.

Quando dei conta
Estávamos entrelaçados no frio chão
Feitos dois animais sob a luz do luar.

Despediu-se sem um único beijo
Enquanto colocava suas vestimentas
Ainda em frenesi.

Pensando estar apaixonado
Só descansei até encontrá-la
Parada em uma esquina qualquer.

Cercada de miséria humana
Não mais pude encará-la
Apenas agradeci por ser quem sou.

A velhice não me trouxe a sapiência
Não sei se um dia amei-a
Sem sequer tê-la beijado
Sem sequer saber seu nome verdadeiro.